Manuela Falcão                                Peso #Dobra1, duo show with Antonio Julio Duarte, may 2026 — SpaceZero , Lisbon



Dobra#1 - Peso
António Júlio Duarte x Manuela Falcão
Curadoria: Rita Baleia




Há um instante anterior àquele em a forma se torna discurso. Um instante em que a imagem ainda não é narrativa e o objeto ainda não se tornou signo. No Space Zero, espaço que recebe o primeiro momento do projecto Dobra, a exposição intitulada Peso, aproxima a fotografia de António Júlio Duarte da cerâmica de Manuela Falcão, reunindo duas práticas distintas que partilham uma atenção comum à luz, à forma e ao tempo.

A linguagem fotográfica de António Júlio Duarte evidencia uma precisão na capacidade de nos apresentar pequenos instantes do quotidiano permitindo que a imagem se construa num momento mais lento e contemplativo. Através de enquadramentos contidos, de uma utilização muito particular da iluminação artificial e de um vínculo muito físico com os ambientes e os objectos, as imagens criam uma tensão entre proximidade e distância.

No entanto, existe algo de inesperado na fotografia aqui apresentada. Para um artista cuja linguagem frequentemente convoca a frontalidade do flash, esse diálogo com a luz parece deslocar-se. A habitual intensidade dá lugar a uma luminosidade baixa, quase difusa e fatigada. Fotografado em 2022, um busto de bronze, datado de 117 a 138 d.C., surge lentamente da penumbra,  exibindo um homem coroado de louros, que foi descoberto em 1646 numa escavação arqueológica e se encontrava exposto numa galeria do Museu Capitolino, em Roma. Esta fotografia parte de um objecto que já atravessou vários estados: foi bronze, rosto, ruína, descoberta arqueológica, peça de museu e, finalmente, imagem. Séculos acumulados numa superfície oxidada, em que não sabemos se estamos perante um retrato ou simplesmente um corpo protegido pela vulnerabilidade de onde emerge. Este busto, deixa então de pertencer inteiramente à História para entrar numa espécie de anonimato visual.

É precisamente nesta Dobra, entre revelação e opacidade que as esculturas de Manuela Falcão encontram um campo comum. As suas cerâmicas absorvem a luz, como quem guarda qualquer coisa. Distribui-se de forma desigual, hesita, demora-se em certos pontos e noutros apaga-se, evocando organismos vivos ou artefactos sem origem precisa, sem reivindicar um passado e sem se fixar num presente definitivo. Existem como matérias instáveis, superfícies que parecem ter absorvido percursos de erosão, pressão ou sedimentação. Mais do que modeladas por processos intuitivos e experimentais, estas peças dão a sensação de terem emergido lentamente da terra, carregando um peso sobre o tempo físico e acumulativo. 


As texturas revelam uma dimensão táctil muito forte, quase epidérmica: fissuras, densidades, zonas porosas ou vitrificadas quase metamórficas, recusando uma evidência absoluta. Elas transmitem a sensação de terem atravessado uma transformação contínua, como pedras moldadas pela água ou elementos corpóreos que ainda conservam traços de calor e pressão dos quais resultam pequenas mutações cromáticas, que fazem com que cada peça retenha uma memória física.

Em Peso, o que vemos oscila. Tal como na fotografia, também aqui existe uma recusa da nitidez enquanto evidência, e talvez por isso este encontro com a imagem seja tão natural: há uma aproximação entre os tons terrosos da cerâmica e a tonalidade que desvenda uma presença humana, criando uma cumplicidade cromática que as faz pertencer ao mesmo ambiente subterrâneo, onde se manifesta um discreto telurismo.

O chão ganha, então, uma importância decisiva. Carrega em si o afastamento da lógica da contemplação frontal, pedindo uma proximidade de condição de vestígio, exigindo que quem visita o espaço seja levado a baixar o corpo, entrando numa relação mais gravitacional com as obras. Há qualquer coisa de arqueológico neste gesto. E é nesta pequena inflexão espacial involuntária que se altera discretamente a experiência de Peso, demonstrando uma continuidade conceptual entre estas duas práticas artísticas. Tudo parece mais pesado, mais próximo da gravidade, da queda, da descoberta e da matéria bruta. 

Em Dobra, essa relação é essencial, o encontro entre António Júlio Duarte e Manuela Falcão acontece precisamente porque ambas as obras permanecem diferentes, mas, no espaço, começam subtilmente a partilhar o mesmo território de iminência.

No fundo, talvez esta exposição exista apenas nesse intervalo, entre aquilo que vemos e o que ainda está para emergir da sombra. 





Rita Baleia

TSPT Studio Lab (tspt©)
Manuela Falcão

selected work
2024 - 2026
2021 - 2023

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2026
    Perfect Timing
    Peso #Dobra01
    Art Brussels
2025 
    Artist Rooms
2024 
     Cacto-Orquídea  
 

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